Orelha do livro escrita por Rubem Alves:
Elaine Pereira da Silva, médica: isso diz muito pouco. Há milhares de médicos com diplomas iguais. A coisa não está nem na partida e nem na chegada; está na travessia, diz Guimarães Rosa. Ser médica é a chegada, estrela que a guiou na noite escura. Mas o sangue e a carne da Elaine estão na travessia, na longa, tortuosa, descontínua e sofrida caminhada para se chegar a esse lugar. Verdade para ela; verdade para nós. Somos o caminho que nos trouxe até o lugar onde estamos. Para se saber quem somos é preciso andar pelos caminhos que trilhamos. E é isso que ela faz: ela conta o caminho. E caminhamos com ela. Negra, mulher, pobre, atingida por lesão cerebral – ela conheceu todo tipo de discriminação, discriminação universal num país que se diz sem preconceitos. Mas havia sempre pessoas amigas que lhe dessem a mão ou emprestassem o ombro. São essas pessoas que tornam a vida digna de ser vivida. Disse que ela chegou: é médica. Errado. Somente os mortos chegam. “Sou uma despedida em cada chegada”, dizia Nietzsche.
Estamos sempre a caminho. Só há caminhos. Somos caminhos. Mas, pelo caminho ela foi colhendo deliciosos aforismos retirados da poesia, da filosofia e da literatura, o que nos faz saber que enquanto caminhava através dos difíceis caminhos do aprendizado da ciência médica ela se alimentava não de ciência médica mas de sabedoria. Medicina não é pão. É panela...
Esse é um livro de sonho, sofrimento, determinação e coragem. Quem o ler ficará maior. Mas pode ser que fique diferente.
Se eu falar mais estarei saindo da orelha. O livro é o resto do corpo da Elaine.
Rubem Alves
