25 de abr de 2013

Entrevista - Belezas de Kianda


Entrevista concedida em 2011 ao blog Belezas de Kianda”, que trabalha com a autoestima da mulher negra.


Leia na íntegra clicando aqui:


Alguns trechos:

Belezas de Kianda: Como foi a sua infância?

Dra. Elaine: Foi feliz, embora eu tenha vivido em meio à pobreza. Minha mãe, D. Ana (empregada doméstica), era uma mulher muito especial, por isto meu livro é dedicado à ela. Ela fazia de tudo, no seu tempo livre, para nos trazer alegrias, ensinava brincadeiras de quintal, contava histórias, “causos”, enfim, nos divertíamos bastante com o pouco que tínhamos. Tenho muita saudade desta época.

BK: Como surgiu sua vontade de ser médica?

Não sei exatamente, mas me lembro que, aos dez anos de idade, eu falei pro Dr. Luis, meu pediatra num convênio médico chamado Comepa, da firma onde meu pai trabalhava como pedreiro, a Filex. Ele sabia que eu era negra e muito pobre, mas ele me disse: “Você vai ser!”. Porque ele percebia que eu era bem inteligente, e que, talvez, conseguisse conquistar este sonho, mesmo sendo tão pobre.O que não imaginávamos é que eu adoeceria gravemente, quando estivesse quase conquistando este sonho, o qual seria adiado por mais três anos.


BK: Na escola de medicina, certamente não haviam muitas mulheres negras e com a mesma origem social que você. Como você se sentia no meio dos outros alunos?


Não é que não havia muitas… (risos) não havia mais nenhuma além de mim! (risos) Em minha turma havia uma outra moça negra, mas ela veio de classe média – era outra história… Negra e pobre – havia apenas eu. Antes de adoecer eu tinha, desde a adolescência, um complexo de inferioridade muito grande. A sociedade me tratou como inferior, porque eu era negra e pobre, e eu acreditei que, de fato, era inferior… E também me sentia muito feia, o que fez de mim uma pessoa extremamente tímida, retraída, sempre me sentindo o “patinho feio”. Isto é péssimo. Falei a Jô Soares que só perdi este complexo de inferioridade mediante uma lesão cerebral aos 30 anos, no quinto ano de Medicina Unicamp. É muito triste saber que eu precisei enfrentar a morte pra descobrir que eu tinha valor. Falei pro Jô que o pior do racismo não é o negro ser tratado como inferior – o pior é ele sentir-se como tal. Lembro-me de que ele concordou. Minha entrevista com ele pode ser vista em meu site, em banda larga: www.doutoraelaine.com.

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